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Mais histórias de verão

Luis Fernando Verissimo

RODRIGO

O Rodrigo estava apaixonado. Apaixonadão. A menina tinha 18 anos, ele 17.

Viam-se todos os dias. Saiam juntos todas as noites. A mãe até estranhara: logo o Rodrigo, que nunca fora de namorar firme. Que gostava de variar. Que era o autor da frase: “O que é bom deve ser compartilhado”, referindo-se a si mesmo e às mulheres. Logo o Rodrigo.

- Vocês não estão exagerando, não?

- O quié, mãe?

- Todo dia, toda noite. Parecem casados.

No fundo, era ciúmes. A mãe do Rodrigo gostava de pensar que, mulher fixa na vida do filho, só ela. Mas não podia negar que a menina, a Carol, era bonita. Que eles faziam um belo par, apesar de a Carol dar a impressão de ser bem mais adulta do que ele. Que o Rodrigo tinha razão para estar apaixonado.

Mas um dia, Rodrigo chegou da rua de cara feia.

- O que foi, meu filho?

Tinham brigado. Ele e a Carol. Estava tudo terminado.

- Mas por quê?

Rodrigo não quis falar a respeito. Se trancou no quarto. Só no dia seguinte, na mesa do almoço, revelou qual era a causa da briga.

- Ela disse que me falta conteúdo.

- O quê?

- Conteúdo. Eu não tenho conteúdo.

- Como, conteúdo?

- E eu sei? Só sei que não tenho.

O Rodrigo saiu da mesa sem comer a sobremesa, que era manjar branco. Trancou-se no quarto outra vez. A mãe ficou indignada. Conteúdo? O Rodrigo não tinha conteúdo? Tinha criado um filho sem conteúdo? O pai do Rodrigo tentou acalmá-la.

- Glorinha, acho que nós temos que concordar que o Rodrigo, em matéria de conteúdo...

- Mas ele só tem 17 anos! Quem é que tem conteúdo aos 17 anos? Se ela quer conteúdo que vá namorar um... um... Sei lá. O Mangabeira Unger!

Mais tarde a mãe bateu na porta do quarto do Rodrigo.

- Meu filho, eu trouxe um pouco do manjar branco pra você. Esquece a Carol.

A porta continuou fechada. As feridas de uma grande paixão precisam de tempo para cicatrizar e criar casca. No caso de adolescentes, no mínimo sete dias. A mãe insistiu. Bateu na porta de novo. Disse:

- Rodrigo, olha. Você tem conteúdo, sim. A Carol é que não notou. Come o seu manjar branco, vai.

MCNAUGHT

Da série Poesia numa hora destas?!

Consolemo-nos com o mote:
quando o cometa McNaught
nesse seu cósmico trote
completar o seu pinote
e como um grande archote
voltar a iluminar este chão,
nada do que há sobrará
nada de nós restará
a não ser desolação
e, vá lá, algum ermitão.
Quando o McNaught voltar
floresta será cerrado
Portugal estará inundado
serra será beira-mar
e o calor será de amargar.
E nem a muralha da China
escapará desta sina.
Qual, então, o conforto
desse planeta semimorto
e desse futuro sem gelo?
É que ninguém estará falando
muito menos se lembrando
do Chinaglia e do Rabelo.


Domingo, 21 de janeiro de 2007.



Desenvolvido por Carlos Daniel de Lima Soares.